Em 5 anos, PM teve 23 mil licenças para tratamento psicológico
Atualmente a Polícia Militar tem cinco psicólogos para atender uma corporação com cerca de 17 mil policiais. Núcleo integrado de atendimento para os profissionais deve ser oficializado pela SSPDS
Em abril de 2009, um oficial da Polícia Militar do
Ceará, que pediu para não ser identificado, percorreu um caminho de depressão
que durou um ano. A situação foi gerada, segundo ele, depois de boatos, que o
fizeram sofrer perseguição por outro oficial de patente maior. A confusão fez
com que ele fosse transferido, ficasse longe da família e permanecesse um ano em
tratamento médico para cuidar do problema psicológico que adquiriu e teve de
buscar ajuda fora da corporação para se recuperar.
A situação do oficial é parecida com
a de muitos militares no estado do Ceará. Entre o ano de 2011 até março de
2016, foram registradas 23.626 licenças para tratamento médico por problemas
psicológicos. O dado foi fornecido pelo presidente da Associação de Praças da
Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (Aspramece), Pedro
Queiroz.
Segundo a Secretaria da Segurança
Pública e Defesa Social (SSPDS), o serviço de acompanhamento psicológico para
os PMs é realizado por cinco profissionais da área da saúde, que atendem uma
corporação com aproximadamente 17 mil militares.
O militar diz que em nada a
corporação o ajudou, apenas existia um relatório mensal elaborado a partir de
visita que buscava saber das condições de saúde do oficial. Por iniciativa
própria, ele buscou um Centro de Atenção Psicossocial no município para onde
foi transferido, passou a tomar medicamento e permaneceu de licença. “Fui
transferido para longe da família, não ia ser mais promovido, afetou o lado
financeiro, fiquei dormindo em quartéis, comecei a me isolar”, descreve.
A melhora veio com o tempo, com
atividades físicas e com a nova transferência, que o possibilitou voltar ao
convívio familiar. Mas ele acredita que o preconceito foi um fator que o
desestimulou, muitas vezes, a procurar ajuda. “Muitos não buscam ajuda na
corporação pelo preconceito. As pessoas acham que quem busca tratamento
psiquiátrico é doido e outros têm receio de procurar e não ter sigilo, de dizer
algo e isso se voltar contra você”, lamenta.
Projeto
De acordo com o titular da SSPDS, André Costa, os
comandantes das corporações e profissionais de saúde vêm se reunindo, há cerca
de um mês, para formalizar um núcleo integrado de atendimento psicológico e de
assistência social, com o objetivo de acompanhar os agentes de segurança
pública.
André Costa afirma que o núcleo
integrado se destinará a atender policiais militares que estão de licença para
tratamento psicológico, para profissionais com dependência química de drogas
ilícitas ou álcool e para uma ação inédita, na área policial, que é discutir o
assédio sexual dentro das Polícias Militar e Civil.
O secretário destaca que o trabalho
dos policiais é reconhecido no Brasil como o que mais estressa e pode levar a
depressão. “Por tudo o que ele vê e presencia, por causa disso, a gente precisa
mudar esse cenário e estamos iniciando o trabalho”.
Para a implementação do núcleo
integrado de atendimento, a SSPDS e a Faculdade Maurício de Nassau estão
formalizando a parceria, que prevê a realização de programas de estágios
supervisionados obrigatórios não remunerados. A assinatura do termo de
cooperação entre as instituições deve ser firmada ainda este mês.
Segundo André Costa, além da
psicologia, serão oferecidos acompanhamentos de nutrição, enfermagem,
fisioterapia e assistência social. “Temos disponibilizado carros, para que
sejam feitos atendimentos nas delegacias, nos quartéis e até nas residências,
porque às vezes os problemas envolvem o seio familiar. Precisamos cuidar deles
para que tenham melhores condições de cuidar da população”, disse.
Números
4.724
licenças por ano foi a média registrada de 2011 a 2015
5
profissionais da saúde atuam para atender uma demanda de 17 mil
PMs
80 mil
é a demanda para atendimento psicológico de agentes de segurança e
familiares
Licenças para
tratamento psicológico
Afastamentos registrados na Polícia Militar do
Ceará nesta década2011 - 3.575
2012 - 7.457
2013 - 5.571
2014 - 5.258
2015 - 1.760
2016 - 5* (até março)
Total: 23.626
Efetivo da PM em dezembro de 2016:
17.316
Fonte: Aspramece
OBS.: após março de 2016, o comando
da Polícia Militar mudou a metodologia da publicação das licenças e não há como
informar a patologia do policial enfermo.
JÉSSIKA SISNANDO


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